JOUER NÃO É SÓ BRINCAR

JOUER NÃO É SÓ BRINCAR Estava à conversa com uma amiga que me dizia que quando ia a Itália aproveitava para comprar partituras de música. De repente perguntei-lhe: jogas que instrumento? Diante da sua surpresa tive de explicar que é um defeito que tenho (entre outros); na precipitação, substituo o verbo tocar por jogar. Influências nefastas da língua francesa que pratico no quotidiano há seis décadas. Assim, em francês, diz-se jouer: para jogar/tocar/ brincar/representar/brincar/apostar/desempenhar etc. (como se vê há pano para mangas), quando se trata de tocar piano, por exemplo. O grande actor e dramaturgo francês Sacha Guitry dizia isso aos seus filhos quando saía de casa à tardinha para ir para o teatro. Nós exercemos a profissão mais bonita do mundo, pois quando saímos de casa dizemos: Vou brincar (representar). Assistindo aos debates de trazer por casa existentes na AR, nas comissões de inquérito, nos tribunais e em tantos outros sítios aprazíveis, chegamos (chego) a essa conclusão. Eles andam a brincar (jouer) aos políticos, aos responsáveis, aos intervenientes. Levam-se a sério, a fim de justificarem o poder exercido sobre os demais… Isto tudo para chegar aos textos deste mês… Li com grande curiosidade nos jornais que Portugal ia dar um grande passo em frente. (lembrei-me logo do que disse Pierre Daninos: “Estávamos à beira do abismo, mas depois, demos um grande passo em frente.”). E em que consiste esse grande passo? Será mais uma nova invenção de tolerância de ponto? Não! Em breve vai ser possível obter um ócio de três dias mediante uma simples “Auto-declaração” de doença pela Internet ou pelo telefone. Medida – assim justificada pelo Governo…– para aliviar o congestionamento no Serviço Nacional de Saúde, “onde não se devem dirigir a fim de não ocasionar filas sem fim (sic)”. Assim disse a Srª. Ministra aqui há uns tempos! Em seguimento do “gostinho” que tínhamos tido, aqui há uns anos, quando a Sra. Doutora e, acessoriamente, ministra…, veio dizer que “se não querem bichas na loja do cidadão: não vão para lá!” Desta vez é a Sra. Ministra da Saúde que aconselha, como o seu lugar e poderio a autoriza: a não ir “parar” aos hospitais no Verão. Afirmando: “a pior coisa que pode acontecer é adoecer ou ter acidentes em Agosto”. Mais foi explicado na nota de propaganda que justifica tal medida de baixa médica sem se recorrer a uma consulta: não implicará “qualquer custo para o Estado ou para o empregador, uma vez que a duração corresponde ao período de carência”. Excepto para o país que “pára” durante esse tempo. Nada tenho contra a aptidão de cada um “avaliar” se está doente ou não quando lhe dá na real gana a fim de gozar (pelo menos ele) de um “trabalho digno". Assim será nas creches? Nos aviões? Nos lares para idosos? Não exemplifico os “bureaux”, pois já há muito isso existe. Cheguei a imaginar, a propósito deste caso de Auto-consulta/justiça, que os carteiristas de Portugal pediriam uma indemnização ao governo pelo prejuízo sofrido durante a crise Covid-19. Os turistas estavam ausentes dos transportes públicos, sítio onde os larápios “labutam” sem olhar ao esforço, às horas de afluência (ver o 28 em Lisboa). Falta de turistas, logo falta de “entradas” de dinheiro para alimentar os filhos e os irmãos que também andam na candonga, pois trata-se de uma vocação familiar. Todas essas famílias padeceram, e muito, da falta de fregueses! Tentemos agora abandonar o labirinto onde nos colocam os indivíduos que navegam através de regras e normas para atingir os seus objectivos numa atitude de “jeu” (brincadeira)! Um pouco do passado: Labirinto foi o nome dado pelos gregos ao lendário palácio do Minotauro, construído por Dédalo. O Minotauro era uma criatura temível, metade homem e metade touro, que foi aprisionado na sua casa pelo rei Minos. Introduziu-se também esse mito em ligação com o problema da morte e do além. Para isso, certas sociedades engendraram a “caverna da iniciação”, onde o postulante vê a negrura chegar ao seu centro através da porta do sacrário. Após esta passagem, o neófito transformava-se num homem novo. Um novo nascimento. Na catedral de Lucca, do século XI, em Itália, existe um labirinto digital com cerca de 50 centímetros de largura. Os fiéis utilizam os dedos para seguir o caminho. No tempo das Cruzadas, muitas pessoas não conseguiam estar presentes para palmilhar o labirinto; então, pagavam a substitutos, à falta de melhor. O Labirinto representa também o Homem em relação ao universo: perdido, sem saber de onde vem, onde está, para onde vai. Tentando abandonar esse estado e encontrar as respostas às suas perguntas ao longo do percurso pessoal de crescimento, de mudança e de evolução. O Labirinto não é uma armadilha destinada a desviar-nos do caminho. O Labirinto é uma viagem alegórica para quem procura o conhecimento e a sabedoria. O Labirinto pode também exprimir a experiência (Labirinto = Laboratório), como é o facto de não sabermos o que vamos encontrar três passos mais à frente e de nos sentirmos tolhidos sempre que tomamos uma decisão. Cada escolha pode abrir novos caminhos ou fechar portas. Por outras palavras, pôr em marcha uma busca pessoal como incentivo através do longo caminho que conduz a um centro (e não ao centro). Uma viagem desde a sua entrada (nascimento) até ao seu centro (morte). O Labirinto implica a necessidade e a obrigação de descobrir uma saída secreta presente algures e que, com paciência, acabará por ser encontrada. Poderia ser também a representação de uma viagem espiritual idêntica a um ritual de meditação, ou mesmo uma busca de significado. Daí a transmissão e a partilha. Transmitir para o exterior a tranquilidade conquistada através do pensamento que o levou a descobrir a sua harmonia interior. Pouco importa se esta postura provém de uma inspiração filosófica, política ou religiosa, o essencial é descobrir e apagar as ideias abrigadas na mente durante séculos. O Labirinto pode ser o mundo das “entranhas”, o “mundo de baixo”, mas também o lugar dos mistérios onde morremos e renascemos. Reflectir sobre a sua condição de ser humano. Se ficarmos presos num labirinto não há saída a não ser que usemos o fio de Ariadne como guia. Seria útil comparar o Labirinto a uma prisão? As paredes de uma prisão são facilmente incorporadas naquelas que encontramos no interior de um labirinto. Por vezes, a estreiteza da nossa mente pode levar-nos a identificarmo-nos com o Labirinto – como diria Platão –, forçando-nos a um bloqueio físico e mental. Não há evasão possível até que a nossa sentença – ou a nossa busca – se encontre repleta. Só mais tarde nos apercebemos da tarefa titânica (referência a outra personagem da mitologia) que nos resta executar. Não queria deixar este campo sem lembrar o verdadeiro labirinto onde estão encurralados os habitantes da Ucrânia há um ano e meio. Cada noite, com ataques aéreos, são fustigados com bombas e outros explosivos sobre alvos específicos, as cidades. Os civis são (como sempre) as principais vítimas, o resultado: mortes e destruição. Táctica para minar a moral da população. Ofensivas sem fim sobre o que há de mais sagrado para qualquer civilização: a integridade física e a PAZ! Resta-lhes a solução de saírem por cima numa busca real de liberdade, tranquilidade e felicidade. Todas as crianças têm direito a uma infância desprendida e alegre no seio das suas famílias. Alguém disse um dia: “Um bom filósofo é um filósofo morto". Ao que eu gostaria de responder com outra frase: Ai de quem nunca filosofou! Sempre ponderei o préstimo que cada ser humano tiraria se dedicasse três minutos por dia a parar tudo e a pensar em si próprio. Não sobre os outros. Não. Sobre si próprio, simplesmente. Alguns poderão considerar esta atitude egoísta. E porque não? Sejamos então egoístas, pensando em nós próprios e fazendo-nos as perguntas difíceis. De onde viemos? O que fazemos aqui em baixo? E, sobretudo, para onde vamos? Como diria Saint-Exupéry: Pergunto-me se as estrelas estão acesas para que cada um de nós possa um dia reencontrar a sua. Todas as catedrais erguidas irradiam tanta luminosidade como os “pedreiros” que as construíram. Um verdadeiro hino à luz. Ao fim da tarde, os vitrais projectam raios de várias cores, iluminando o interior com os últimos raios do pôr-do-sol. Assim é o homem que se instala na cintilação e recebe uma luz “interior” que liberta definitivamente o seu espírito. No seu leito de morte, Goethe disse: “Luz, mais luz”. Porque estamos aqui? Para ir mais “longe” ou para ir mais “profundo”? O importante não é ter chegado ao cimo da montanha, mas sim ter a percepção do caminho percorrido para lá chegar. Cada um carrega dentro de si a sua experiência e os “passo a passo” que efectuou na sua pesquisa. Tentemos ajudá-lo a sair de SEU labirinto. Apenas isso: Ser uma muleta espiritual. “O verdadeiro problema não é saber se viveremos depois da morte, mas se ainda estamos em vida antes da morte.” (Maurice Zundel). (Foto: Opéra Garnier, Paris)

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Em termos de apresentação

Percurso artístico-profissional de Carlos Otero