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A mostrar mensagens de junho, 2026

SÓ… SEM MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

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Num 30 de Novembro, o “nosso” Fernando Pessoa deixou-nos, regressando para junto dos que o tinham “emprestado” a este planeta durante 47 anos. Não queria deixar de destacar esse facto. O presente texto evoca a sua amizade com outro grande poeta, injustamente esquecido pelos nossos contemporâneos: Mário de Sá-Carneiro, que nasce em Lisboa a 19 de Maio de 1890 e morre em Paris a 26 de Abril de 1916. Poeta, contista, foi um dos grandes expoentes do modernismo em Portugal e um exímio membro da chamada Geração d'Orpheu. Ao perder a sua mãe ainda criança, ressentiu sempre um vazio na sua vida. Guardando assim uma saudade sem fim da sua não-felicidade da infância. Escrevia: Pobres crianças que não conheceram a mãe, a infância foi toda uma desolação, desprovida de carinhos, de afagos. A idade venturosa da infância! Em volta de nós podem suceder as piores catástrofes. No entanto, é vagamente que percebemos a dor humana. Para as crianças felizes existe realmente um céu, o céu dos seus p...

SÓ SEM ANTÓNIO NOBRE

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“Quando ele nasceu, nascemos todos nós. A tristeza que cada um de nós traz consigo, mesmo no sentido da sua alegria é ele ainda.” Assim escreveu Fernando Pessoa. Paralelo/coincidência entre os dois poetas: António Nobre publica um só livro de poemas ainda em vida com 25 anos e Fernando Pessoa publica um só livro em vida com 47 anos. António Nobre nasceu numa família com bens, mercê do pai, antigo emigrado no Brasil. A infância, a adolescência feliz e despreocupada, foram passadas junto de paisagens provincianas que recordará toda a sua vida. Estudou no Porto e frequentou a boémia. Em Coimbra matriculou-se no curso de Direito da Universidade de Coimbra, mas com o seu carácter intimista não conseguiu encaixar-se na vida estudantil coimbrã. No entanto, desde a sua chegada, com os seus modos de dandy, e ao mesmo tempo que fazia versos sobre a morte, exerceu sobre os outros estudantes uma excepcional sedução. Outros serão menos sensíveis à sua força espiritual, como os professore...

À CONVERSA COM… MOZART

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Carlos: Creio que não há inconveniente em que te trate por tu? Já nos conhecemos há tanto tempo… Não queria deixar passar este mês de Julho sem te prestar a devida homenagem. Foi nesta época que recebeste uma encomenda do abastado Conde Walsegg, que, por lema, encomendava obras musicais aos compositores para depois as copiar e as atribuir a si mesmo. Tratava-se de um Requiem que não chegaste a terminar (tenho uma certa opinião a esse respeito, aliás), deixaste apenas dois terços concluídos… o que daria muito que falar. Não posso esquecer o teu primeiro triunfo com a ópera O Rapto do Serralho, estreada a 16 de Julho de 1782, no Burgtheater. O imperador José II felicitou-te, mas não deixou de salientar a tua audácia musical, através de uma frase que se tornou célebre: Demasiado bonita para os nossos ouvidos e demasiadas notas, meu caro Mozart. Ao que tu respondes: Há exactamente as que são necessárias, Majestade. Arrojado, frente ao Imperador! Mozart: Nunca tinha analisado a minha ...

O ARISTIDES

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Imagem de Wikipedia: Aristides com esposa Angelina e os dez primeiro filhos Tenho a certeza de que os nossos leitores não tiveram dificuldade em identificar O Aristides. Trata-se evidentemente do Cônsul Aristides de Sousa Mendes. Designá-lo desta maneira não é, de forma alguma, uma falta de respeito, mas sim um achegamento maior a essa personagem bem superior às demais. Na minha profissão também se diz A Callas; O Pavarotti; A Amália; O Pessoa. Sem que tal seja uma falta de consideração, antes pelo contrário, mais sendo como que uma identificação com os que nos antecederam. Assim, e depois de muitos anos ao abandono (que até metia dó), pude este Verão finalmente visitar a casa-museu de Sousa Mendes. Fi-lo com grande interesse e devoção perante esta figura mais do que querida da população de Cabanas de Viriato. Todas as peças apresentadas são de uma grande beleza histórica. Quem não esqueceu a que correspondem, não pode deixar de ficar emocionado. Por trás de cada uma está um SER Huma...

"JOUER" NÃO É SÓ BRINCAR

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JOUER NÃO É SÓ BRINCAR Estava à conversa com uma amiga que me dizia que quando ia a Itália aproveitava para comprar partituras de música. De repente perguntei-lhe: jogas que instrumento? Diante da sua surpresa tive de explicar que é um defeito que tenho (entre outros); na precipitação, substituo o verbo tocar por jogar. Influências nefastas da língua francesa que pratico no quotidiano há seis décadas. Assim, em francês, diz-se jouer: para jogar/tocar/ brincar/representar/brincar/apostar/desempenhar etc. (como se vê há pano para mangas), quando se trata de tocar piano, por exemplo. O grande actor e dramaturgo francês Sacha Guitry dizia isso aos seus filhos quando saía de casa à tardinha para ir para o teatro. Nós exercemos a profissão mais bonita do mundo, pois quando saímos de casa dizemos: Vou brincar (representar). Assistindo aos debates de trazer por casa existentes na AR, nas comissões de inquérito, nos tribunais e em tantos outros sítios aprazíveis, chegamos (chego) a essa c...

Carta a um Amigo

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"Meu caro amigo António Escrevo-te hoje como quem tenta alcançar alguém que partiu, mas que continua vivo e pulsante nas dobras da memória, nas lembranças e na imaginação. Mesmo sem resposta tua! (Quem sabe?). Não sei se alguma vez te disse — ou se disse o suficiente — o quanto a tua companhia significava. Talvez estas palavras possam chegar até ti, onde quer que agora respires de outra forma, levando a minha recordação e o meu carinho. Sinto falta dos nossos comentários, da maneira como conseguíamos explorar cada pensamento sem medo de errar, sem pressa de chegar a conclusões. Assim era o nosso diálogo: mais do que palavras; era uma forma de compreender o mundo e a nós próprios. Sinto falta das nossas conversas (sobretudo pelo telefone, em consequência da distância física. Tu em Lisboa e eu em Paris), da nossa boa disposição, dos debates acalorados sobre ideias que pareciam urgentes naqueles tempos idos. E como esquecer os inúmeros momentos passados juntos em minha casa em Paris ...

Em termos de apresentação

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Este blogue nasceu da insistência de alguns amigos e admiradores junto de Carlos Otero, no sentido de se criar um espaço de divulgação da sua vida, do seu percurso artístico e da sua obra, onde, quem conhece, encontra uma enorme riqueza. Assim, quando finalmente concordou, fez questão de que este blogue tivesse início com a carta que escreveu ao seu querido amigo António Marques, ex-director do jornal "Raio de Luz", onde Carlos Otero publicou durante vários anos, e que lamentável e recentemente, partiu precocemente em direcção a outros orientes. Escolheu também este dia de Camões para estreia deste painel, este luso-franco-galego que embora há muitas décadas radicado e naturalizado em França, nunca esqueceu, nem a sua língua, nem o seu país de origem.

Percurso artístico-profissional de Carlos Otero

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Carlos Otero nasceu em Lisboa e vive em Paris há mais de 60 anos. Escreve, é actor e cantor. Encenou teatro, operetas e óperas. Entre outras, no Teatro dos Champs Elysées, de Paris, o drama "Thamos", e "A Flauta Mágica" ambas de Mozart, assim como quatro espectáculos no teatro de S. Carlos. Fez cento e cinquenta conferências. Tem mais de 3.200 representações em palco e, com a concretização "Ópera na Escola", encaminhou 9.000 alunos a assistir a espectáculos líricos montados com a sua companhia de ópera. Desse projeto fez parte a ópera "Cinderela" de Rossini, apresentada em Lisboa no Centro Cultural de Belém. Escreveu uma biografia-desencaminhada sobre o compositor A. Salieri, grande rival de Mozart, assim como duas peças de teatro, um libreto de ópera, dois livros sobre músicos clássicos, dois livros de "Conversas" de Chachas, guião de filmes sobre Veneza e sobre a história da Opereta. Licenciado em Musicologia pela Sorbonne, consagra-...