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O “CHEIRINHO” DAS VELAS

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(Pintura: O concerto. Um músico no cravo e um violoncelista. pintura de Gaspare Traversi (1722-1770) Rouen, Musee des Beaux Arts) A propósito de “velas”, gostaria de destacar uma consideração que arquitectei frequentemente. Abstraindo das diferenças de cultura, educação, transmutações ou gostos entre o século das Luzes e o século XXI, é possível, hoje, ter a mesma percepção sensorial da música que no século XVIII? Naquela altura, a música era ouvida em salões ou salas frequentemente pouco aquecidas e iluminadas com velas de sebo, abelha ou espermacete (nos salões da corte de Viena havia 3000 velas) que libertavam um cheiro atroz... Dir-se-ia mesmo nauseabundo. Mesmo se classificarmos o olfacto do ser humano como pouco desenvolvido (comparado com os dos mamíferos), tal não impede que as células olfactivas enviem impulsos directamente ao cérebro onde se centraliza também a audição. Se considerarmos o cheiro das velas não parafinadas que existiam, quando se ouvia um concerto, a perce...

SÓ… SEM MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

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Num 30 de Novembro, o “nosso” Fernando Pessoa deixou-nos, regressando para junto dos que o tinham “emprestado” a este planeta durante 47 anos. Não queria deixar de destacar esse facto. O presente texto evoca a sua amizade com outro grande poeta, injustamente esquecido pelos nossos contemporâneos: Mário de Sá-Carneiro, que nasce em Lisboa a 19 de Maio de 1890 e morre em Paris a 26 de Abril de 1916. Poeta, contista, foi um dos grandes expoentes do modernismo em Portugal e um exímio membro da chamada Geração d'Orpheu. Ao perder a sua mãe ainda criança, ressentiu sempre um vazio na sua vida. Guardando assim uma saudade sem fim da sua não-felicidade da infância. Escrevia: Pobres crianças que não conheceram a mãe, a infância foi toda uma desolação, desprovida de carinhos, de afagos. A idade venturosa da infância! Em volta de nós podem suceder as piores catástrofes. No entanto, é vagamente que percebemos a dor humana. Para as crianças felizes existe realmente um céu, o céu dos seus p...

SÓ SEM ANTÓNIO NOBRE

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“Quando ele nasceu, nascemos todos nós. A tristeza que cada um de nós traz consigo, mesmo no sentido da sua alegria é ele ainda.” Assim escreveu Fernando Pessoa. Paralelo/coincidência entre os dois poetas: António Nobre publica um só livro de poemas ainda em vida com 25 anos e Fernando Pessoa publica um só livro em vida com 47 anos. António Nobre nasceu numa família com bens, mercê do pai, antigo emigrado no Brasil. A infância, a adolescência feliz e despreocupada, foram passadas junto de paisagens provincianas que recordará toda a sua vida. Estudou no Porto e frequentou a boémia. Em Coimbra matriculou-se no curso de Direito da Universidade de Coimbra, mas com o seu carácter intimista não conseguiu encaixar-se na vida estudantil coimbrã. No entanto, desde a sua chegada, com os seus modos de dandy, e ao mesmo tempo que fazia versos sobre a morte, exerceu sobre os outros estudantes uma excepcional sedução. Outros serão menos sensíveis à sua força espiritual, como os professore...

À CONVERSA COM… MOZART

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Carlos: Creio que não há inconveniente em que te trate por tu? Já nos conhecemos há tanto tempo… Não queria deixar passar este mês de Julho sem te prestar a devida homenagem. Foi nesta época que recebeste uma encomenda do abastado Conde Walsegg, que, por lema, encomendava obras musicais aos compositores para depois as copiar e as atribuir a si mesmo. Tratava-se de um Requiem que não chegaste a terminar (tenho uma certa opinião a esse respeito, aliás), deixaste apenas dois terços concluídos… o que daria muito que falar. Não posso esquecer o teu primeiro triunfo com a ópera O Rapto do Serralho, estreada a 16 de Julho de 1782, no Burgtheater. O imperador José II felicitou-te, mas não deixou de salientar a tua audácia musical, através de uma frase que se tornou célebre: Demasiado bonita para os nossos ouvidos e demasiadas notas, meu caro Mozart. Ao que tu respondes: Há exactamente as que são necessárias, Majestade. Arrojado, frente ao Imperador! Mozart: Nunca tinha analisado a minha ...

O ARISTIDES

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Imagem de Wikipedia: Aristides com esposa Angelina e os dez primeiro filhos Tenho a certeza de que os nossos leitores não tiveram dificuldade em identificar O Aristides. Trata-se evidentemente do Cônsul Aristides de Sousa Mendes. Designá-lo desta maneira não é, de forma alguma, uma falta de respeito, mas sim um achegamento maior a essa personagem bem superior às demais. Na minha profissão também se diz A Callas; O Pavarotti; A Amália; O Pessoa. Sem que tal seja uma falta de consideração, antes pelo contrário, mais sendo como que uma identificação com os que nos antecederam. Assim, e depois de muitos anos ao abandono (que até metia dó), pude este Verão finalmente visitar a casa-museu de Sousa Mendes. Fi-lo com grande interesse e devoção perante esta figura mais do que querida da população de Cabanas de Viriato. Todas as peças apresentadas são de uma grande beleza histórica. Quem não esqueceu a que correspondem, não pode deixar de ficar emocionado. Por trás de cada uma está um SER Huma...

Carta a um Amigo

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"Meu caro amigo António Escrevo-te hoje como quem tenta alcançar alguém que partiu, mas que continua vivo e pulsante nas dobras da memória, nas lembranças e na imaginação. Mesmo sem resposta tua! (Quem sabe?). Não sei se alguma vez te disse — ou se disse o suficiente — o quanto a tua companhia significava. Talvez estas palavras possam chegar até ti, onde quer que agora respires de outra forma, levando a minha recordação e o meu carinho. Sinto falta dos nossos comentários, da maneira como conseguíamos explorar cada pensamento sem medo de errar, sem pressa de chegar a conclusões. Assim era o nosso diálogo: mais do que palavras; era uma forma de compreender o mundo e a nós próprios. Sinto falta das nossas conversas (sobretudo pelo telefone, em consequência da distância física. Tu em Lisboa e eu em Paris), da nossa boa disposição, dos debates acalorados sobre ideias que pareciam urgentes naqueles tempos idos. E como esquecer os inúmeros momentos passados juntos em minha casa em Paris ...

Em termos de apresentação

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Este blogue nasceu da insistência de alguns amigos e admiradores junto de Carlos Otero, no sentido de se criar um espaço de divulgação da sua vida, do seu percurso artístico e da sua obra, onde, quem conhece, encontra uma enorme riqueza. Assim, quando finalmente concordou, fez questão de que este blogue tivesse início com a carta que escreveu ao seu querido amigo António Marques, ex-director do jornal "Raio de Luz", onde Carlos Otero publicou durante vários anos, e que lamentável e recentemente, partiu precocemente em direcção a outros orientes. Escolheu também este dia de Camões para estreia deste painel, este luso-franco-galego que embora há muitas décadas radicado e naturalizado em França, nunca esqueceu, nem a sua língua, nem o seu país de origem.