SÓ SEM ANTÓNIO NOBRE

“Quando ele nasceu, nascemos todos nós. A tristeza que cada um de nós traz consigo, mesmo no sentido da sua alegria é ele ainda.” Assim escreveu Fernando Pessoa. Paralelo/coincidência entre os dois poetas: António Nobre publica um só livro de poemas ainda em vida com 25 anos e Fernando Pessoa publica um só livro em vida com 47 anos. António Nobre nasceu numa família com bens, mercê do pai, antigo emigrado no Brasil. A infância, a adolescência feliz e despreocupada, foram passadas junto de paisagens provincianas que recordará toda a sua vida. Estudou no Porto e frequentou a boémia. Em Coimbra matriculou-se no curso de Direito da Universidade de Coimbra, mas com o seu carácter intimista não conseguiu encaixar-se na vida estudantil coimbrã. No entanto, desde a sua chegada, com os seus modos de dandy, e ao mesmo tempo que fazia versos sobre a morte, exerceu sobre os outros estudantes uma excepcional sedução. Outros serão menos sensíveis à sua força espiritual, como os professores retrógrados. Mas não perdeu tudo e aproveitou para fundar a revista Boémia Nova com Alberto de Oliveira. Em Coimbra habitava na medieval “Torre de Anto”, onde hoje uma lápida assinala essa presença. Foi aí que pôde fazer medrar a sua orientação romântica, compondo incalculáveis textos que fariam parte da sua obra futura. Contudo, o seu interesse estava mais voltado para a poesia do que para os estudos e, com dois desaires consecutivos no curso de Direito, depressa troca a cidade dos doutores pelo exílio em Paris. Mais um à caça da Glória! Chegou a Paris cheio de ilusões, e acabou por se formar em Ciências Políticas na Sorbonne. Aquilo que Coimbra (da qual falará eternamente com saudade) lhe tinha negado, foi a Sorbonne a atribuir-lhe. Numa carta de 1895, enviada de Paris, anunciava que tinha acabado os seus estudos e admitia, infeliz: E só agora vejo a sua inutilidade, destes cinco anos e cinco contos, que, aqui, gastei. Em Paris teve a sorte de se relacionar com grandes figuras da literatura da época. Aproveito a menção deste facto para avaliar a atmosfera de uma época em que escritores ilustres como Émile Zola, Dumas e Mallarmé se mostravam acessíveis e davam troco a um poeta desconhecido. Todos os artistas portugueses como Antero de Quental, Amadeu de Souza-Cardoso ou Sá-Carneiro tinham tentado a sua fortuna na cidade LUZ. Vinham para estudar, para conviver (quando possível) com outros artistas e para aprender. Mas quem mais o enterneceu foi Verlaine, “Príncipe dos Poetas”, pelo seu aspecto físico. Todo roto e calçado com uns chinelos. Como o confirma na sua correspondência, era de carácter inocente e de uma autenticidade feita de constrangimento e inquietação. O Bairro Latino, sua pátria matricial, foi uma grande decepção pela sua realidade quotidiana. Todos iam à vida sem se preocuparem com os seus semelhantes. Cada um ocupado consigo próprio. Durante a sua estadia em França, familiarizou-se com as novas tendências da poesia do seu tempo, aderindo ao simbolismo. A falta de convívio contribuía para que se fechasse cada vez mais em si como um monge solitário. Mas talvez tenha contribuído para se construir mais profundamente, o que teria sido impossível noutro sítio. Foi também em Paris que contactou duma maneira pouco entusiástica com Eça de Queiroz, então cônsul de Portugal, que fruindo dos inúmeros ócios desse cargo (para o qual era pouco dotado) se dedicava à escrita. Dizia-se na época, em Portugal: vale a pena que lhe paguem um salário como Cônsul só para escrever obras-primas. A sua veia poética resultou do seu profundo provincianismo (no bom sentido da palavra), nascido da sua relação com a vida dos simples, por quem sentia um carinho singelo. Enquanto criança, tinha a sensação de que, se não visse as pessoas, elas também o não veriam. Ponderava que em Paris tal seria uma hipótese para passar despercebido. O que nunca imaginou foi até que ponto tal sucederia, deixando-o ignoto. Mas é com a realidade intrínseca da capital que amparará um ataque de melancolia. Saudade da Pátria, separação dos amigos, dos locais de infância tão amados, e tudo então agravado por questões económicas. Durante o Inverno percorria as bibliotecas para se aquecer: Eu tenho passado quási todo este tempo de silêncio nas bibliotecas, a ler, a ler – e onde tenho bom fogo. Os seus poemas são um reflexo do sentimento negativo de exílio que o infestara desde a sua chegada a Paris. Seria ele dessas pessoas que todas as manhãs acordam pensando: que infeliz que sou, ou então, sou um herói? Sentir-se infeliz exaltava a sua atitude solitária, um pouco como o spleen da sua verdadeira voz interior. Os dias passavam longos (longos como um dia sem pão) com a grande solidão acarretada pelo frio de Paris. Um frio ressentido intensamente por todos os que por lá passaram em busca de aconchego, fama e afecto. João Gaspar Simões escreveu: não era uma atitude: o seu isolamento era uma condição natural de vida. Seria este o sentido lusitano da ausência? Ai do Lusíada, coitado Que vem de tão longe, coberto de pó Que não ama, nem é amado, Lúgubre Outono no mês de Abril! Numa das suas últimas cartas escreve: E Portugal melhora? E essa Lisboa, linda e doce, de que eu gosto tanto? Abrace-a por mim, sim? Estou ansioso por me ir embora. As minhas saudades, este ano agravadas por mortais tristezas, tornam-me insuportável este Paris. Ninguém com quem partilhar o que me vai na alma – e pelo corpo. Durante o período dos seus estudos na Sorbonne, observou as propensões da Nova Poesia que começava a ser desenvolvida. Porém, sentiu o seu génio criar forças – e sentiu-se português. Das escolas poéticas francesas, talvez se tenha deixado influenciar pela chamada poesia simbolista, que lhe caía como uma luva. Sempre sem esperança e angustiado pela morte. A dado passo encontrou-se com Sampaio Bruno, livre-pensador radicado durante um ano em Paris, depois da sua participação ao fracasso da revolta do Porto, aguçando o seu sentimento de solidão, que lhe provocou uma forte crise maníaco-depressiva. Encontraram-se no quarto humilde de Sampaio Bruno. O espectro da carência e da solidão inspirou-os no tumulto de Paris. O encontro dos dois mais importantes intelectuais portugueses do século XIX foi um portento: o filósofo e o poeta. É na sua intimidade de poeta que António Nobre ou António SÓ, no ermo do seu quarto na Rue de la Sorbonne, n.° 12, terminou o SÓ. Hoje, no local, graças a uma feliz iniciativa de José Augusto Seabra, uma lápida assinala esse facto. O livro SÓ é alicerçado pelo estado de espírito em que moralmente se encontrava na altura do seu exílio. Foi o único livro que publicou em vida, em Paris, em 1892. Num exemplar da 1ª. edição existia uma dedicatória – apagada, entretanto – a Margarida de Lucena, sua noiva (este noivado foi um facto insuficientemente assumido e terminou em 1896): à Margarida, gloriosa Muza do “Só” o seu poeta reconhecido António! Numa carta dá a perceber que casará com ela mais tarde. António Nobre tinha a noção que qualquer coisa findara na sua vida de poeta e escreve ainda em Paris: Só é, ainda hoje, considerado o livro mais triste que há em Portugal. Se é o livro mais triste, não sei. Só sei que é um livro de exílio, de emigração poética. Que país é este Portugal, uma terra que fez feliz um poeta tão triste? E ao seu amigo José de Castro escreve: nem como poeta vim cá buscar alguma coisa. No entanto, foi a inovação do que ouviu e viu nos cafés de Saint-Michel e do que leu nos alfarrabistas que o ajudaram a sair do que existia. Só foi editado em Portugal ainda em vida do poeta e foi recebido com críticas severas e ofensivas pelos “grandes” da época, o que o conveliu. António Nobre construiu Portugal como um país ideal. De regresso, resolveu enveredar pela carreira diplomática como cônsul. Efectuou o concurso, mas sem sucesso. Considerou-se sempre um doente, aliás como todos nós. Foi-lhe detectada a temível tuberculose que, na altura, era uma doença fatal. Esteve num sanatório na Suíça (de onde escreveria: A minha vida, aqui, é duma tristeza infinita e aborrecimento mortal. Enfim, a perpétua solidão d’aquelas montanhas sem gente. Feliz de quem tem saúde!). Seguiram-se Nova Iorque e a Madeira. Decepcionado, voltou para Portugal, para Seixoso, procurando na mudança de clima o remédio para o seu mal. Eis o que escrevia na sua última carta, de 16 de Março: Continuo mal e não posso mais estar aqui. Os ares são fortes de mais. Morro, se continuo. Uma eterna melancolia que duraria até à morte. Faleceu na Foz do Douro, a 18 de Março de 1900, na casa de seu irmão Augusto Nobre, com apenas 32 anos de idade. Foi sepultado num jazigo e posteriormente transferido para o cemitério de Leça da Palmeira, localidade onde tinha crescido. (Há muito havia escrito: Quando criança, eu pedia, que à hora da morte quando fosse a enterrar, “me embrulhassem” num cobertor, porque tinha medo do frio do jazigo.) Deixou-nos só. Só os que ficam têm a dor de perder um ente querido. Deixou inédita a maioria da sua obra. Actualmente está um pouco esquecido, assim se confirmando o que tanto receava que acontecesse e… que se concretizou. A sua figura povoou o nosso universo e terá influído grandes nomes da literatura portuguesa. Vitorino Nemésio dizia: os seus versos quase soam “desafinados” aproximando-se do ritmo da prosa ou dos “versos contados”. Como aquelas histórias contadas à beira da lareira, nas províncias. Os seus temas essenciais são: a saudade, o exílio, a pátria, a poesia, atingindo, como o saudosismo, uma grandeza mítica. Sempre Só! Assim se explica o seu lusitanismo e a extravasante expressão que deu à palavra Saudade. Em Portugal, o primeiro poeta da Saudade foi e será o povo. Eis a razão por que ela nos pertence exclusivamente, afirmava. Saudade, saudade! palavra tão triste, E ouvi-la faz bem: Meu caro Garrett, tu bem na sentiste, Melhor que ninguém!

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