Carta a um Amigo
"Meu caro amigo António
Escrevo-te hoje como quem tenta alcançar alguém que partiu, mas que
continua vivo e pulsante nas dobras da memória, nas lembranças e na
imaginação. Mesmo sem resposta tua! (Quem sabe?).
Não sei se alguma vez te disse — ou se disse o suficiente — o quanto a tua
companhia significava. Talvez estas palavras possam chegar até ti, onde quer
que agora respires de outra forma, levando a minha recordação e o meu
carinho.
Sinto falta dos nossos comentários, da maneira como conseguíamos explorar
cada pensamento sem medo de errar, sem pressa de chegar a conclusões.
Assim era o nosso diálogo: mais do que palavras; era uma forma de
compreender o mundo e a nós próprios.
Sinto falta das nossas conversas (sobretudo pelo telefone, em consequência
da distância física. Tu em Lisboa e eu em Paris), da nossa boa disposição, dos
debates acalorados sobre ideias que pareciam urgentes naqueles tempos idos.
E como esquecer os inúmeros momentos passados juntos em minha casa em
Paris uma vez por ano? A tua presença era um ritual de reencontro: púnhamos
a conversa em dia como quem reacende uma chama antiga. Tudo era pretexto
para reflectir, para examinar. Museus, exposições — sobretudo as de pintura,
que tanto te encantavam — e livrarias eram os nossos templos silenciosos,
onde o mundo se abria diante de nós.
E foi com grande prazer que aceitei o teu convite para escrever no “Raio de Luz”,
crónicas que eu baptizei como sendo “Chachadas”, para não me levar a
sério. E assim foi durante sete anos...
Sem esquecer também as inúmeras vezes que nos encontrávamos em Sesimbra onde eu
passava dois meses de férias todos os anos. Quantas vezes o mar foi testemunha
das nossas conversas, dos encontros tecidos entre o acaso e a vontade. Entre
tardes longas e animações no Centro Cultural onde fiz algumas conferências.
Havia sempre espaço para aquilo que mais nos definia: estar, simplesmente.
Partiste cedo demais, meu amigo, e deixaste um silêncio que não é vazio, mas
feito de tudo aquilo que eras: palavra que acolhe, caminho que orienta, escuta
que abriga e cuidado que permanece. Sem ti, continuo a procurar respostas — não
para as fechar, mas para as manter vivas, como o fazíamos sem saber. Talvez seja
essa a herança dos nossos dias: perguntas abertas, como janelas. Lembro-me da
forma como olhavas o mundo: com atenção, com espanto, com respeito. Nada era
pequeno demais para o teu olhar, nenhuma história insignificante para a tua
escuta. E talvez por isso escrevesses assim — com profundidade e delicadeza,
como quem sabe que tudo importa. Escrevias não para impressionar, mas para
ligar. Cada palavra tua parecia procurar alguém, tocar alguém, transformar
alguma coisa, mesmo que de forma discreta como quem respira com verdade, com
urgência, com beleza. Nas tuas páginas cabiam mundos inteiros. Os teus livros
disso são testemunhas. E num deles, fizeste-me a honra de me pedires o prefácio
— tarefa difícil que levei até ao fim com o cuidado que merecias. Disseste-me
que gostaste. Guardo isso como quem guarda um gesto de fulgor. Obrigado, António.
Obrigado Pelo que foste. Pelo que és ainda. Pelo que, sem saberes, continuarás a
ser. As tuas viagens nunca foram fugas, mas encontros. A tua capacidade de
recordar caras, seres e paisagens era simplesmente prodigiosa. Uma palavra
simples, mas sentida, sobre cada um, sempre. Partias para regressar maior —
carregado de histórias, de olhares, de silêncios partilhados. E tudo isso
transbordava depois nas nossas conversas, onde o mundo se tornava mais vasto,
mais íntimo. Viajavas por geografias, sim, mas sobretudo por pessoas, por
instantes irrepetíveis. Sabias chegar com delicadeza, ficar com presença, partir
com gratidão — sempre de coração aberto ao que a vida te oferecia. E é por isso
que continuas em cada gesto. E depois havia o teu trabalho, esse compromisso
profundo com o cuidado dos outros e com uma dedicação que ia muito além do
dever. O que ali se realizou não será esquecido....faço votos! Ali, eras mais do
que responsável — eras presença, apoio, confiança num espaço de dignidade, onde
cada pessoa era tratada como única. Isso ficou. Isso fica. Agora, o silêncio
responde no teu lugar. E, curiosamente, nele encontro ecos teus — como se cada
pausa fosse também uma forma de diálogo. Talvez seja isso que resta: uma
conversa transformada, mais lenta, mais distante, mas ainda viva a tua amizade
continua presente dentro de mim. Lembro-me da última vez que nos vimos. Do teu
esforço — esse “sacrifício físico” — para, já bastante doente, vires de Almada
até Cascais, só para estares presente numa conferência que eu fazia “com” o
Mozart. Esse gesto tão teu, diz tudo: a fidelidade, a amizade, a presença que
nunca falhava. E lembro-me, sobretudo, quando há dois anos me ajudaste a
suportar a dor da perda de alguém que fez comigo um caminho feliz durante 56
anos. Sabias o que essa ausência (ou não presença) significava. A tua presença —
mesmo à distância — foi abrigo, foi força, foi luz em dias escuros. Há auxilios
que não se agradecem: sentem-se. E o teu foi desses. Obrigado, António. Por
estares. Por continuares. Por, de algum modo, nunca teres partido."
Carlos
Na fotografia: Engenheiro António Marques

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