O ARISTIDES
Imagem de Wikipedia: Aristides com esposa Angelina e os dez primeiro filhos
Tenho a certeza de que os nossos leitores não tiveram dificuldade em identificar O Aristides. Trata-se evidentemente do Cônsul Aristides de Sousa Mendes. Designá-lo desta maneira não é, de forma alguma, uma falta de respeito, mas sim um achegamento maior a essa personagem bem superior às demais. Na minha profissão também se diz A Callas; O Pavarotti; A Amália; O Pessoa. Sem que tal seja uma falta de consideração, antes pelo contrário, mais sendo como que uma identificação com os que nos antecederam.
Assim, e depois de muitos anos ao abandono (que até metia dó), pude este Verão finalmente visitar a casa-museu de Sousa Mendes. Fi-lo com grande interesse e devoção perante esta figura mais do que querida da população de Cabanas de Viriato.
Todas as peças apresentadas são de uma grande beleza histórica. Quem não esqueceu a que correspondem, não pode deixar de ficar emocionado. Por trás de cada uma está um SER Humano. Um ser que sofreu, acreditou, esperou e viveu (ou não)!
Não é apenas um museu do passado. É do presente. Do nosso presente, cada vez mais atabalhoado de perseguições, guerras e mortes.
Muitos anos passaram desde a sua morte (na miséria) com pouco reconhecimento da sua coragem, ao fazer o que ele considerava o seu DEVER.
Vários (demasiados) anos passaram desde o que se considerou – com razão – o início da democracia, o 25 de Abril. Não para ele! Para ele ainda não tinha chegado a hora. Era preciso esperar.
Os novos democratas – novinhos em folha – andavam demasiadamente preocupados consigo próprios para poderem prestar homenagem àquele que tinha salvo 30.000; 20.000; 10.000; 100; 10 ou até só uma pessoa. O verdadeiro número deve estar algures.
Ignorando eles que: Quem salva uma vida, salva a humanidade toda. Não faltaram – não faltam – grande HERÓIS de gabinete, para dizerem (e confirmarem com provas) que o Aristides não salvou tanto como isso. Decretando: se calhar até só foram 10.000! Em prol da verdade, deve-se dizer que estes grandes universitários não estavam presentes em Bordéus, na época. Aliás, ainda nem eram nascidos. Isto na hipótese de o serem hoje. Não deixarei de os citar mais longe. Cresce e aparece.
Este museu evoca os valores da tolerância e da paz, imortalizando a memória de Aristides Sousa Mendes, o diplomata que salvou XX.XXX (cada doutoraço intelectual depositará aqui o número que lhe apraz). Um ser que mudou a vida de milhares de pessoas contra as regras impostas pelo ditador Salazar.
Em 1 de Agosto de 1938, Aristides de Sousa Mendes foi nomeado cônsul-geral de Portugal em Bordéus.
A 11 de Novembro de 1939, Salazar enviou a circular n.º 14: Pretende-se proibir, sem o acordo prévio, a entrada de “pessoas indesejáveis” em Portugal, tendo em conta as “actuais circunstâncias anormais”, através da selecção de refugiados. Esta medida destinava-se particularmente a estrangeiros de nacionalidade indefinida, vistos como fontes de infiltração de ideias incompatíveis com o “espírito nacional” e potenciais inimigos do regime autoritário português. Apátridas, titulares de passaportes emitidos pela Sociedade das Nações, judeus expulsos do seu país de origem ou do país de que eram nacionais, pessoas suspeitas de actividades políticas contra o nazismo!
Em Bordéus a população passa, num ápice, de 300.000 para 700.000, sendo cada vez mais os refugiados à espera de vistos frente ao consulado português. Lisboa era o único porto da Europa com ligações às Américas.
Em Junho de 1940, o tempo era escasso e o Consulado em Bordéus abria às 8:00 e quase não fechava. Todos participavam na tarefa. Alguns refugiados, de ambos os sexos, tinham encontrado refúgio em várias divisões da residência.
Aristides, em Baiona, colocou uma cadeira e uma mesa no passeio da Rue du Pilori, número 8, onde ficava o escritório do vice-cônsul, para carimbar e assinar os passaportes. Em Hendaia emitiu os preciosos vistos aos refugiados encontrados pelo caminho.
Rapidamente estas irregularidades foram detectadas pelos serviços do Ministério e pela PVDE – a polícia política portuguesa. Salazar, conhecido pela sua severidade, não tolerava qualquer oposição e, muito menos, qualquer desrespeito pela sua autoridade. Rapidamente se apressou a informar as autoridades inglesas, com medo de perturbar a aliança histórica existente. Afirmando, inclusive, que tinha posto termo aos estragos ocorridos em Bordéus e em Baiona e que o cônsul fora exonerado das suas funções.
Assim foi, o Cônsul foi obrigado a regressar a Portugal acusado pelo Conselho de Disciplina de desobediência, premeditação, reincidência e acumulação de crimes. O julgamento, à porta fechada, acusou-o de emissão de vistos não autorizados, falsificação de passaportes e crime de extorsão. Condenado a uma suspensão de um ano, seguida de aposentação, após trinta anos de diplomacia.
Em 1941, Sousa Mendes explicava: Na verdade, desobedeci, mas a minha desobediência não me desonra. Eu optei por desafiar uma ordem que para mim representava a perseguição a verdadeiros náufragos.
Morreu em 1954, no anonimato, na pobreza e longe dos catorze filhos.
CLARO, e como não podia deixar de ser, o número de vistos emitidos por Sousa Mendes é contestado. Contestado ao ponto de não aceitarem os 30.000, mas somente alguns milhares. Alguns milhares? O quê? Então a proeza da coragem também se mede aos palmos? Uns quantos milhares de SERES Humanos… já não é mau! E não seria o bastante?
Alguns juízos, com livros escritos, são ofertados por responsáveis que ocuparam lugares de destaque (não sei se também com o mesmo!) e que tiveram certamente alguns problemas de consciência no desfecho de alguns casos por eles tratados.
Nem tudo é possível em certas circunstâncias. Por vezes é preciso decidir contra a vontade dos grandes que mandam. Ou talvez não! Não é assim, sr. Embaixador?
Assim o escreveu o ex-embaixador português João Hall Themido (já falecido). Um mito criado por judeus, só o título nos põe à vontade, o cônsul é acusado de: actuação irregular… De forma totalmente irrealista, fala-se em 30 mil o número de vistos concedidos em apenas alguns poucos dias pelo cônsul e seus familiares, de forma cega, no consulado e até nos cafés da vizinhança. Para mais, considera incompreensível criticar o Ministério, incluindo o ministro, por ter aplicado a lei nas circunstâncias da época.
Desde já se pode compreender que ele, no lugar de Sousa Mendes, não o teria feito. Eis uma informação importante. Ele não teria desobedecido e, por consequência, não teria salvado alguns XX.XXX de Seres!
Já o ex-embaixador português Carlos Fernandes escreveu: Tinha uma carreira obscura, já com vários processos disciplinares. Naquela altura estava em Bordéus, que era um consulado sem grande importância, tinha uma família numerosa e dificuldades económicas. Fizeram umas centenas de passaportes, que venderam, até que a PIDE (o sr. embaixador não sabe que na altura se chamava PVDE) deu por isso.
Sua Excelência Carlos Fernandes, de 97 anos, hoje falecido – o tal velhote, como lhe chamou um jornalista –, pôs em causa que o cônsul em Bordéus tenha salvado 30 mil refugiados, garantindo mesmo que o cônsul não tinha dado 30 mil vistos a judeus em fuga, mas apenas algumas centenas, e nunca tinha (ele, Cônsul) sido perseguido por Salazar. Folgo em o saber. Foi então ele o único a não o ser! Aristides, ao contrário do que se tem propalado, não deu 30.000 vistos, dos quais 10.000 a judeus nos dias da ira, mas apenas entre 600 e 650, nunca tendo sido exonerado de cônsul de Portugal nem aposentado por Salazar, recebendo até morrer o seu vencimento como tal. Ele não salvou ninguém, porque ninguém estava em perigo de vida (!) e também não deu o visto de graça a ninguém, porque precisava do dinheiro. Só́ deu vistos de graça depois de destituído, que se saiba. O Aristides (o sr. embaixador também o trata, como eu, por Aristides!) não salva nenhum judeu. E ainda: as acções de Sousa Mendes foram inflacionadas e distorcidas para atacar Salazar.
Será a defesa do dr. Salazar, pelo sr. Embaixador o verdadeiro nó do problema?
Não devemos esquecer a lista manuscrita com dezenas de milhares de nomes que pude consultar (e em breve publicada, segundo notícia que obtive no próprio museu. Sem falar dos testemunhos recebidos por este Mundo fora por aqueles que sabem que estão vivos graça aos vistos obtidos em Bordéus).
Certo é que os srs. ex-embaixadores não podem aceitar isto como prova suficiente; e também é possível que não tenham tido semelhantes testemunhos com as – poucas – boas acções por eles praticadas no lugar/posto de embaixadores?
Pelos seus esforços para salvar refugiados judeus, Sousa Mendes foi reconhecido em 1966, por Israel, como Justo entre as nações. Com uma árvore plantada e com a inauguração oficial de uma praça com o seu nome.
Em 1986, o Congresso dos Estados Unidos emitiu uma proclamação em homenagem ao seu acto heróico.
Placa memorativa no Quai Louis-XVIII, 14, morada do Consulado de Portugal em Bordéus em 1940, e uma estátua na Esplanada Charles de Gaulle.
Uma rua na área da grande Baiona também tem o seu nome.
Foi reabilitado pelo seu país em 1986 (já não era sem tempo), condecorado postumamente pelo Presidente Mário Soares com a Ordem da Liberdade, tendo a sua família recebido um pedido público de desculpas. Entrou no Panteão Português a 19 de Outubro de 2021. 67 anos depois da sua morte.
Em 2017, na cidade fronteiriça portuguesa de Vilar Formoso, foi inaugurado o museu memorial Fronteira da Paz.
Em 2022 O Museu d’Aquitaine prestou-lhe homenagem com uma exposição.
Em 2022 foi inaugurada em Paris uma artéria com o nome de Aristides.
Obrigado, Aristides
Gostaria de terminar esta crónica com “ele”, mas não posso. Eu nem queria acreditar no que lia. Mas é verdade! Se o Sr. Aristides lesse isto até ficava apalermado, ele, que tantos problemas teve com os vistos! Dir-se-ia que o ser humano já não é o mesmo, nem as leis e interesses por ele atafulhadas.
Assim: São mais de 700 (!) empresas russas e iranianas que entraram em Portugal ao abrigo de um programa cozinhado pelos Senhores prepotentes do Ministério da Economia, com a concessão de vistos de residência a investidores vindos de fora da União Europeia. Só da Federação Russa, instalaram-se em território nacional 430 startup e do Irão 275. Leram bem 430 e 275 com residência na Europa. Tenho a certeza de que já alcançaram o porquê!
A Europa está aos pés (deles).
E tudo isto por amor do país (Portugal) e dos seus habitantes, tão carinhosos e hospitaleiros. Colossal solução para aproveitarem o… Sol. Ao mesmo tempo que, com a cumplicidade e a cegueira dos responsáveis, podem, facilmente, contornar/aldrabar as sanções aplicadas desde há muito a esses países! Este maravilhoso programa do IAPMEI, StartUp Visa, acolhe os que pretendam inovar em Portugal e obter o visto de residência. Adeus às sanções! Se calhar até dá jeito a alguns dos que cozinharam este sistema. Na primeira fila: os russos, claro, ainda que não tenham constituído empresa em território nacional ou que, já tendo empresa criada no país de origem, queiram implantar-se no nosso país. Eis os critérios: Intenção de desenvolver actividades empresariais para produzir bens e serviços inovadores. Já chega. Abrir ou deslocalizar empresas e/ou projectos focados em tecnologia. (As armas fazem parte?) Ter potencial para criar empregos qualificados e potencial para atingir, três anos após o período de incubação, 325.000 € ou um volume de negócios superior a 500.000 € por ano. Como se sabe, o caroço nunca foi problema para as autoridades russas.
Existem 94 incubadoras (incluo os sinónimos: abrigo; esconderijo) em todo o país, municipais, empresariais, confirmadas para fabricarem contratos.
Os preceitos intimados são só de aparência. Está-se mesmo a ver! Duvido que as ditas incubadoras tenham vontade de verificar estas firmas em relação às sanções impostas pela UE à Rússia, Bielorrússia e Irão.
Sem surpresa, a procura acelerou nestes últimos tempos… É só mandar vir!

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