O “CHEIRINHO” DAS VELAS

(Pintura: O concerto. Um músico no cravo e um violoncelista. pintura de Gaspare Traversi (1722-1770) Rouen, Musee des Beaux Arts) A propósito de “velas”, gostaria de destacar uma consideração que arquitectei frequentemente. Abstraindo das diferenças de cultura, educação, transmutações ou gostos entre o século das Luzes e o século XXI, é possível, hoje, ter a mesma percepção sensorial da música que no século XVIII? Naquela altura, a música era ouvida em salões ou salas frequentemente pouco aquecidas e iluminadas com velas de sebo, abelha ou espermacete (nos salões da corte de Viena havia 3000 velas) que libertavam um cheiro atroz... Dir-se-ia mesmo nauseabundo. Mesmo se classificarmos o olfacto do ser humano como pouco desenvolvido (comparado com os dos mamíferos), tal não impede que as células olfactivas enviem impulsos directamente ao cérebro onde se centraliza também a audição. Se considerarmos o cheiro das velas não parafinadas que existiam, quando se ouvia um concerto, a percepção não era, com certeza, a mesma de hoje. Uma sonata de Cimarosa ou de Mozart terá presentemente o mesmo “sabor” e o mesmo “cheirinho” de então? Não creio! Mas antes de ir mais longe, gostaria de falar um pouco dos concertos e dos espectáculos de ópera no século XVIII. O que eram na realidade? Eis algumas pistas: Tinha-se o hábito de aplaudir entre os andamentos duma obra, que mais não fosse para permitir afinação dos instrumentos. Talvez seja essa uma das razões por que tenho hoje alguma dificuldade em ouvir certas obras executadas com os chamados instrumentos da época, (mas que guardam a afinação durante todo o tempo da execução,) sem falar dos meus “ouvidos” que não são os mesmo da época. Os meus já ouviram e adaptaram-se ao barulho dum avião a jacto, dum telefone, dum CD, etc. O diapasão estava meio-tom abaixo do actual (desde 1953 fixado em 440 hertz) e não era o mesmo em todos os países. Mas devo acrescentar algo que me parece de importância. Na Áustria, nenhum criado, jardineiro ou cozinheira era contratado se não soubesse tocar um instrumento de música. Participavam desta maneira nos concertos dados pelos patrões aristocratas aos seus convidados. Criados e criadas serviam à mesa e em seguida executavam um quarteto ou quinteto de Haydn, Cimarosa... Mozart. Acredito que esta seja uma das formas de afirmar a igualdade entre o Ser Humano! Em Itália, nos teatros de ópera, os espectadores instalados nos camarotes, bebiam, jogavam às cartas e não paravam de falar – e se os italianos são faladores-, razão pela qual existem as chamadas “aberturas” no início das óperas. Para os obrigar a calar. Durante a representação faziam-se visitas entre os camarotes. Só no momento da ária da soprano ou dos castrati é que o público prestava atenção. Estes últimos tinham o hábito de improvisar vocalizando durante tempos infinitos. A orquestra parava e... esperava. Os cantores obrigavam os compositores a modificar as árias que deviam cantar. Chegando mesmo a acrescentarem árias escritas por outros compositores nas óperas que cantavam. Muitas vezes, a mesma ária era cantada duas vezes por intérpretes diferentes. Um a seguir ao outro, sem a mínima preocupação de qualquer realidade teatral. O próprio Mozart teve que se sujeitar a esta ditadura dos “divos”. Os senhores importantes estavam instalados no palco. Levantavam-se e sentavam-se quando queriam... e falavam entre eles! (Um pouco como actualmente com os telemóveis nas salas de concerto.) Para a mudança de cenários havia uma astúcia: duas pessoas discutiam ao fundo da sala para distrair a atenção do público, que, atraído pela algazarra se voltava para trás. Entretanto em cena, fazia-se a mudança dos cenários. Também podia ser um espectador que tocava trompete, etc. As ruas não eram iluminadas; então “alugava-se” o serviço duma pessoa com uma lanterna para acompanhar, a pé, os espectadores até ao teatro de Ópera. Esperavam à entrada e, no fim do espectáculo, auxiliavam os seus clientes ao regresso. Eram os... UBER daquela época. Em contrapartida, o público, embora indisciplinado, tinha mais conhecimentos musicais do que se pensa. Por exemplo, quando uma ária “lembrava” o estilo ou a melodia dum outro compositor, o público gritava “Brava Cimarosa” ou “Brava Païsiello”. Desafio qualquer público de hoje a reagir com este conhecimento. Os salões e as salas de teatro eram pouco ou mal aquecidos. Os actos eram de pequena duração para permitir a mudança das velas instaladas à boca de cena para a iluminação. Os cantores avançavam o máximo para serem iluminados pelas velas da ribalta. Por curiosidade, gostaria de relembrar um pouco a condição do músico nessa época: Joseph Haydn assinou um contrato com o príncipe Esterházy, pelo qual era obrigado a ter um vestuário de doméstico (libré) e ir todas as manhãs ao seu quarto buscar as ordens do seu senhor e mestre para algum concerto naquele dia. Gluck aparecia nos ensaios com um boné de lã e os músicos da orquestra tocavam com luvas calçadas e... Bach foi para a cadeia por ter exigido uns dias de férias. Hoje tudo é diferente, inclusivamente, o público. As salas de concertos estão iluminadas com néon, e os músicos da orquestra já não têm luvas, os cantores não improvisam e conhecem o solfejo l Que falta, então? Uma melhor/maior escuta? Uma melhor difusão junto do ”povo ouvinte”? Uma melhor sensibilização junto daquele que não vai aos concertos, porque está convencido de que não é para ele: Que é preciso conhecer música, Ser instruído, Ser cultivado. Se fossem tantos os requisitos essenciais, não sei se haveria público, hoje, nas salas de concertos. É apenas conveniente “desabotoar” a escuta... Até o compositor Ludwig Beethoven “ouvia” música e era ...surdo! Então?...

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