A MÚSICA, VERTENTE DO SER HUMANO?
(Pintura: "David", de Lorenzo Monaco)
A música não é mais do que o prolongamento do silêncio e vice-versa! Assim, no princípio era… o silêncio.
Com a minha indisciplina habitual, proponho esta afirmação que me parece condigna. O silêncio, sim, existia, estou certo disso. E… o silêncio é já MÚSICA.
A definição de música poderia ser deste cariz: “a harmonia do silêncio!” A música poderia ser também a poesia sem palavras. Porém, o compositor Jean Sibelius define-a doutra maneira: “A música começa onde a palavra acaba.”. (1) Não se sabe de onde vem a música, sabe-se no entanto para onde vai… Para o coração. Com a vivência desta disposição pode-se passar mais facilmente do profano ao sagrado/divino. Será então pela palavra que lembrarei o que a música pode arvorar…
Vivemos indiscutivelmente uma época “crítica”, onde as antigas certezas são incapazes de orientar eficazmente as acções presentes. Numerosas são as pessoas que têm a impressão de que, no domínio da gestão pública, "qualquer coisa não está correcta”… mas não há nada a fazer.
Então, individualidades resolutas afirmam que descobrir o mundo não significa apenas descobrir o exterior. Não, o fundamental é edificar a longa viagem para o seu interior, a fim de definir o registo devido e expurgar as ideias recebidas, abrigadas desde há muito na mente. E isto com a finalidade de deixar de viver do exterior para o interior mas… o contrário!
Agrada-me uma definição dada por Marcel Proust: "A verdadeira viagem não é ver outras paisagens, mas sim ter outros olhos."
Outros olhos são os do homem que tem preocupações espirituais (ou melhor, inteligência do espírito) e que percebe que somente a consciência intelectual não é satisfatória; outra substância deve fazer apelo ao conhecimento do mundo e de si mesmo. Para que assim se conserve viva no nosso entendimento o que se viveu na nossa ״carne״.
Diria quase que a crise da humanidade "dispõe de duas saídas". O actual desencaixe da humanidade, estrangeira a si própria, com a queda no ódio, na crueldade, na guerra perpétua ou, então, o renascimento da humanidade a partir do espírito crítico, da ética, da solidariedade apenso à dignidade, a fim de superar a animalidade do homem.
O pensamento é mágico, como é mágica a sua viagem. E que haverá no término da viagem? Para alguns os ensinamentos não faltam: É a viagem para o país onde nunca se chegará?
Talvez seja isso a viagem mística que continua?!
O Homem não é um inútil neste mundo já acabado, concluído, mas tão-somente um agente enérgico de um mundo a construir.
Poderia lembrar que a imaterialidade consequente da música não é qualquer coisa de abstracta ou de enigmática. É concreta! Praticamo-la mesmo sem disso estarmos cientes. Não é apenas um exercício intelectual. Está ao nível de qualquer um, simplesmente ouvindo. Através dela, uma ínfima parcela de luz pode abrilhantar uma faixa do mundo e assim identificarmo-nos intensamente com ela. A música exprime claramente que não é necessário fazer uma viagem imaginativa para outros pensamentos, pois ela, além de trazer um certo alívio à humanidade, permite um comportamento menos ansioso.
A música não é uma escola mas uma arte, o que quer dizer que não ajuda a APRENDER, mas a SER.
Frequentamos regularmente as salas de concerto para nos instruirmos uns aos outros através da compreensão mútua. Somos um elo da cadeia que nos “algema” e que nos agrega na tarefa mais difícil sobre esta terra: NÓS PRÓPRIOS!
Mas como pode a música agir dentro do corpo humano? Simplesmente porque a alma do ser humano sente-se feliz, fresca, animada com o que o seu corpo recebeu. A nossa sensibilidade acompanha a escuta da música em simultâneo com uma observação “no mais profundo de nós próprios״, onde estão guardadas, escondidas, todas as emoções!
No jogo do bilhar, uma simples tacada da bola chega para mudar a direcção da outra que está parada, à espera. Assim pode ser em relação aos jovens – e menos jovens – que esperam pela energia final e que estão, como diria o poeta Fernando Pessoa; à escuta da sua alma.

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